quarta-feira, 25 de julho de 2012

Investidores sociais devem utilizar dados sobre analfabetismo em suas decisões


Os investidores sociais responsáveis por influenciar políticas públicas devem usar os dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2011, de uma forma mais aprofundada na tomada de decisão.  A conclusão é de especialistas com base nos dados divulgados na última semana que apontam o descompasso entre o aumento de escolaridade e os a ganhos nas habilidades de leitura

O Inaf 2011, elaborado pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, apontou que, durante os últimos 10 anos, houve uma redução do analfabetismo absoluto e da alfabetização rudimentar e um incremento do nível básico de habilidades de leitura, escrita e matemática. No entanto, a proporção dos que atingem um nível pleno de habilidades manteve-se praticamente inalterada, em torno de 25%.

Esses resultados evidenciam que o Brasil já avançou principalmente nos níveis iniciais do alfabetismo, mas não conseguiu progressos visíveis no alcance do pleno domínio de habilidades, que são hoje condição imprescindível para a inserção plena na sociedade letrada. Segundo a diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, boa parte destes avanços é devida à universalização do acesso à escola e do aumento do número de anos de estudo. Com efeito, de acordo com dados censitários produzidos pelo IBGE, o número de brasileiros com ensino médio ou superior cresceu em quase 30 milhões na década 2000-2010.

Entretanto, os dados do Inaf levantados no mesmo período indicam que estes avanços no nível de escolaridade da população não têm correspondido a ganhos equivalentes no domínio das habilidades de leitura, escrita e matemática. Somente 62% das pessoas com ensino superior e 35% das pessoas com ensino médio completo são classificadas como plenamente alfabetizadas. Em ambos os casos, essa proporção é inferior ao observado no início da década.

O Inaf também revela que um em cada quatro brasileiros que cursam ou cursaram até o ensino fundamental II ainda estão classificados no nível rudimentar, sem avanços durante todo o período. “Apesar dos avanços, tornam-se cada vez mais agudas as dificuldades para fazer com que os brasileiros atinjam patamares superiores de alfabetismo. Este parece um dos grandes desafios brasileiros para a próxima década”, avalia Ana Lúcia.

Para a coordenadora geral da Ação Educativa, Vera Masagão, os dados do Inaf mostram que a chegada de novos estratos sociais às etapas educacionais mais elevadas vem, muitas vezes, acompanhada da falta de condições adequadas para que estes estratos alcancem os níveis mais altos de alfabetismo, o que reforça a necessidade de uma nova qualidade para a educação escolar, em especial nos sistemas públicos de ensino. “Outro fator essencial para avançar é o investimento constante na formação inicial e continuada de professores, que precisam ser agentes da cultura letrada em um contexto de inovação pedagógica”.
Investidor Social
Outra pessoa a opinar sobre este assunto foi a gerente da Fundação Itaú Social, Isabel Santana. Ela chama a atenção para a contribuição que o investimento do Instituto Paulo Montenegro faz para a produção de informação qualificada, como o Inaf, pois neste cenário nasce uma contribuição para tomadas de decisões na área de políticas educacionais. 

“É fundamental para os institutos e fundações, responsáveis das políticas públicas, usar esses dados (do Inaf 2011) de uma forma mais aprofundada na tomada de decisão em investimento social privado”, disse Isabel.

De acordo com ela, o investimento social privado no Brasil concentra grande parte de seus recursos na área da educação. Quando se observa que o aumento de escolaridade da população não é proporcional ao aumento de educação plena, e considera-se o volume de recursos investidos na área pela iniciativa privada pelo viés social, só é possível chamar de investimento se houver foco nos resultados.

Isabel cita algumas ações que poderiam ser feitas para melhorar este cenário de alfabetismo no Brasil:

- Possibilidade de sinergia entre institutos;
- Ações estruturadas de mobilização da sociedade para tornar este tema prioridade nos âmbitos públicos;
- Desenvolvimento e experimento de novas formas de aprendizagem;
- Trabalhar de forma parceira e vinculada às políticas educacionais que a secretaria de educação vem fazendo.

Para finalizar, Isabel apontou duas questões para se refletir sobre este cenário. Primeiro, estamos em plena discussão sobre o Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece várias metas, e uma forma de aprofundar este estudo é olhando os dados do Inaf. Segundo, as conclusões de que os avanços no nível de escolaridade da população não têm correspondido a ganhos equivalentes no domínio das habilidades de leitura, escrita e matemática, é reflexo da má formação que os estudantes têm no ensino médio, que dificilmente conseguirão recuperar no nível superior.

A coordenadora do Instituto Ayrton Senna, Inês Kisil Miskalo, afirma que apesar de institutos, fundações e empresas terem ampliado continuamente os investimentos na educação brasileira, é preciso que essas instituições realizem um papel mais importante: expor o quanto o fracasso educacional compromete o desenvolvimento do país, mobilizar vontades e influenciar políticas públicas efetivas e eficazes, capazes de romper o fracasso educacional, notadamente no quesito alfabetização.

"Saber ler, escrever, contar e entender a natureza e seus fenômenos deve fazer parte da formação de crianças e jovens, tanto quanto saber relacionar-se, resolver problemas cotidianos, acessar e selecionar informações e posicionar-se criticamente. É uma tarefa educacional gigantesca e estratégica para o desenvolvimento do país, que vai muito além das habilidades de leitura, escrita e matemática, e que não pode ser responsabilidade apenas dos profissionais da educação, ou do setor governamental, mas sim de todos os setores da sociedade. Daí a importância da participação dos institutos, das fundações e das empresas, em uma ação de corresponsabilidade social".
De acordo com ela, as instituições podem colaborar em duas frentes: para que as práticas gestoras de diagnóstico, planejamento, gerenciamento da execução e avaliação de processos e resultados sejam elementos constituintes das políticas públicas; e podem disponibilizar ferramentas gerenciais que facilitem o estabelecimento e o alcance de metas e a eficiência do processo.

Em relação a assegurar que o tema alfabetismo tenha prioridade nas políticas públicas, Inês ressalta três importantes pontos:

- É preciso demonstrar a necessidade de se ter educação de qualidade como prioridade, pois os investimentos feitos em educação reduzem os custos econômicos e sociais, e são os que trazem os maiores retornos financeiros a médio e longo prazo. Mostrar para os governantes que investir em educação é um “bom negócio”, é essencial para lhe dar o status de prioridade.

- Oferecer ao setor público ações que possam ser executadas sob a forma de política pública, ou seja, levadas a qualquer estado ou município brasileiro.

- Acompanhar os processos e tornar públicos os resultados, sempre em relação às metas inicialmente propostas.

"Tornando o poder público responsável pelo desenvolvimento e resultados é a forma de se garantir prioridades, pois ele deixará de sê-lo no momento em que o “problema” for solucionado", conclui Inês.
 
Saiba mais no site do IBOPE e veja a reportagem divulgada no Jornal Nacional.

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