sexta-feira, 27 de julho de 2012

Jovens brasileiros pretendem transferir tecnologia de baixo custo para escola na Libéria


Em março de 2010, o brasileiro Vinícius Zanotti fez uma viagem à Libéria, um dos países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta. Durante a viagem, ele conheceu Sabato Neufville, um professor que recebe da ONU um salário de US$ 900 mensais e mantém uma escola gratuita num país onde até mesmo as escolas públicas são pagas. Sabato custeou, do próprio bolso, a construção da escola e paga também os salários de todos os professores. Ele adotou também nove crianças órfãs da guerra que parou o país por 14 anos, e só terminou em 2003, e fundou o Youth Movement Against Violence. A preocupação maior de Sabato é preparar as crianças para que elas não sejam vítimas fáceis de cooptação no caso de uma nova guerra.
Vinícius acabou contraindo febre tifóide durante a viagem, mas mesmo assim, decidiu se engajar. Ele fez um documentário (veja ao final do texto) e reuniu um grupo de voluntários de diversas áreas com a intenção de construir uma nova escola, com todas as instalações sanitárias e até geração de energia elétrica. Eles já conseguiram até trazer Sabato Neufville ao Brasil para uma palestra. Vinícius conta que Sabato visitou a favela de Paraisópolis e ficou impressionado com as condições em que o povo brasileiro vive, mas de uma maneira diferente. “Se os pobres liberianos viessem morar aqui, iriam se sentir ricos! O nosso país inteiro não tem energia elétrica”.
Vinícus Zanotti já trabalha há dois anos com um grupo de voluntários brasileiros no Projeto Escola de Bambu. A história de Vinícius sensibilizou o Instituto Lula. A ideia não é só construir um prédio, mas também usar tecnologias e materiais pesquisados e usados no Brasil e transferir conhecimento para que os próprios liberianos construam escolas semelhantes pelo país a baixo custo.
Em setembro, o Projeto Escola de Bambu começou a arrecadar fundos para a construção da escola e a formação da mão-de-obra local. Segundo Vinícius, uma escola no Brasil custa em média R$ 2,5 milhões, e o orçamento da Escola de Bambu está em cerca de R$ 410 mil, “valor que estamos tentando diminuir”. O grupo, que hoje reúne mais de 30 profissionais brasileiros, todos voluntários, construiu um site com as informações sobre o projeto em www.escoladebambu.com.
Leia abaixo como foi nossa conversa com o idealizador do projeto.
Vinícius, explique o que é o Escola de Bambu?
É um projeto que visa a construção de uma escola sustentável para atender 300 crianças na comunidade de Fendell, na Libéria, África. Nossa proposta é utilizar tecnologias com pesquisa e aplicação no Brasil e, além de construir a escola, dividir este conhecimento com os liberianos.
E o que há de criativo nessa construção?
Do ponto de vista construtivo, utilizaremos bambus e blocos de tijolo adobe. Ambos são fornecido gratuitamente pela natureza: o bambu é plantado e o adobe feito com terra no próprio local. Para a problemática sanitária, utilizaremos um modelo de fossa biodgestora desenvolvido pela Embrapa, que produzirá fertilizantes para a plantação da comunidade local. Para a solução energética, nossa opção foi o protótipo desenvolvido pelo bioconstrutor Peetssa, fabricado com ímãs de HD de computador quebrado e rodas de bicicleta. Modelo que já está em funcionamento em quatro comunidades indígenas e quilombolas aqui no Brasil. Nossa proposta construtiva é totalmente sustentável, além de propor a completa transferência de tecnologia. Tudo isso a um baixíssimo custo: no Brasil, uma escola custa em média R$ 2,5 milhões, e nosso projeto está orçado em pouco mais de R$ 410 mil.
Conte como você teve contato com a comunidade de Fendell e a escola na Libéria.
De uma viagem que fiz ao país em março de 2010. Por lá, conheci Sabato Neufville, 34 anos, que é uma das pessoas mais fantásticas que pude encontrar. Ele adotou 9 filhos órfãos de guerra e é um ativista que combate à violência infantil. Fundou o United Youth Movement Against Violence, que atua em quatro diferentes comunidades promovendo atividades lúdicas, esportivas e educacionais para crianças e jovens.
Na comunidade de Fendell, após perceber que era elevado o número de jovens fora da escola por conta da distância, Sabato decidiu construir, com bambus enfileirados, uma unidade de ensino com o pequeno salário que recebe. Prestador de serviços da ONU, seus ganhos não superam os U$ 900 mensais. A escola é gratuita, diferente até mesmo das escolas públicas da Libéria, que são pagas. Sabato repassa, do próprio salário, cerca de 20 dólares para cada um dos 16 professores. Diante desta realidade, decidi que tentaria de alguma forma colaborar. Com uma câmera na mão, e em meio a uma convalescência de febre tifóide, gravei o documentário “Escola de Bambu”. Trouxe o material para o Brasil e comecei a articular com antigos amigos uma forma de ajudar.
Você acha que esse projeto pode  movimentar mais do que apenas uma escola?
Inicialmente, este projeto foi pensado como uma ação pontual, mas sabemos do potencial dele. Com a transferência completa de tecnologia, outras diversas pessoas naquele país estarão qualificadas para reproduzir esse modelo construtivo. Se avaliarmos os salários dos liberianos, veremos que com U$ 7.000 mensais é possível contratar uma equipe de cerca de 70 pessoas, pagando salários superior ao mínimo da Libéria, que é de 70 dólares. Com todos qualificados, novas edificações sustentáveis poderão acontecer.
Certamente, este mesmo modelo construtivo seria facilmente aplicado em outros países africanos, podendo inclusive ser utilizado como política pública. Mas, ao mesmo tempo que conhecemos seu potencial e de sua importância, nos deparamos com a viabilidade financeira. Ele é barato, essa captação não tem sido fácil. Já são dois anos de muita luta voluntária para chegar aos R$ 400 mil, e ainda não conseguimos.
Nós temos a equipe qualificada e disposta à ir ao campo, mas precisamos de parceiros fortes para viabilizar todas estas ações. Sem eles, fica impraticável pensarmos em uma ação não pontual.
Como você vê a importância da cooperação Brasil-África?
Acredito que nós, como brasileiros, temos o dever de viabilizar projetos de cooperação! É inegável o tamanho da dívida que temos com o povo africano e já passou da hora de pagarmos. O Brasil cresceu e desenvolveu tecnologias que são facilmente aplicadas naquele continente, até mesmo pela proximidade de nossos climas. Então, precisamos repassá-las! Penso que o Brasil, até mesmo por ter sido explorado por muitos anos, deva assumir uma relação mais solidária do que econômica, fornecendo a principal ferramenta para o desenvolvimento: o conhecimento.
Você conheceu a Libéria, como você vê os problemas desse país em comparação com o Brasil?
É impossível comparar Brasil e Libéria. Quando Sabato Neufville veio para cá, diversas pessoas tentaram explicar as diferenças sociais em nosso país. Foi impossível. Chegamos a visitar a favela de Paraisópolis e uma outra em São Bernardo; ao ver televisão, internet e energia, Sabato comentou: “se os pobres liberianos viessem morar aqui, iriam se sentir ricos! O nosso país inteiro não tem energia”.
Se pensarmos em políticas públicas, veremos o quão distante são nossas realidades. Não existe SUS: o hospital, mesmo que público, é pago. Igual acontece com escolas e universidades. Tudo é pago e ninguém tem dinheiro! O salario dos professores da Escola de Bambu, por exemplo, é de 20 dólares!
A Libéria não tem um semáforo. Poucas ruas são asfaltadas e o maior prédio tem 8 andares. Não existe ônibus nas ruas e o transporte pode te fazer esperar por mais de 4 horas: são carros, sem qualquer itinerário ou destino; ou motos, sem capacete, claro. Se checarmos o IDH, veremos que a Libéria ocupa a 6ª posição de baixo pra cima. Em termos de acessos à internet, apenas 0,07 pessoas a cada 100 estão conectadas na rede, o pior índice do mundo.
Como vocês estão arrecadando doações?
Estamos conversando com empresas, mas temos arrecadado dinheiro organizando rifas, camisetas, festas e também pelo site www.escoladebambu.com, que também tem toda a história do projeto e a prestação mensal de contas.

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